“o mundo das paixões é o mundo do
desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e
com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo
emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e
clara da nossa casa, que cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem
do outro lado; e nenhum entre nós há de transgredir esta divisa, nenhum entre
nós há de estender sobre ela sequer a vista, nenhum entre nós há de cair jamais
na fervura desta caldeira insana, onde uma química frívola tenta dissolver e
recriar o tempo; não se profana impunemente ao tempo a substância que só ele pode
empregar nas transformações, não lança contra ele o desafio quem não receba de
volta o golpe implacável do seu castigo; ai daquele que brinca com fogo: terá
as mãos cheias de cinza; ai daquele que se deixa arrastar pelo calor de tanta
chama: terá a insônia como estigma; ai daquele que deita as costas nas achas
desta lenha escusa: há de purgar todos os dias; ai daquele que cair e nessa
queda se largar: há de arder em carne viva; ai daquele que queima a garganta
com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que se antecipa no
processo das mudanças: terá as mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo,
que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou
pó de osso, de um branco frio, ou quem sabe sepulcral, mas sempre a negação de
tanta intensidade e tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver;
acaba por nada sentir, de tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto
que quer viver; cuidem-se os apaixonados, afastando dos olhos a poeira ruiva que
lhes turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam turbilhões
confusos, expurgando do humor das glândulas o visgo peçonhento e maldito;
erguer uma cerca ou guardar simplesmente o corpo, são esses os artifícios que
devemos usar para impedir que as trevas de um lado invadam e contaminem a luz
do outro...”
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